Carta em Busca 2017

CARTA EM BUSCA 2017

Romper com as indiferenças:

abrir o coração

para viver na confiança da PAZ

“Romper com as indiferenças para humanizar a Humanidade”

 

O tema da CARTA EM BUSCA do ano passado ainda permanece, entre nós, enquanto desafio à abertura de coração.

Romper com as indiferenças supõe uma confiança capaz de se abrir à diferença dos outros. Fechando-nos não estamos somente a ignorar, mas sobretudo a isolarmo-nos das diversas realidades que vão acontecendo. A falta de abertura de coração torna-nos incapazes de sermos motivadores de confiança e construtores de um “tempo de Paz” (1).

 

Abertura de coração…

Os “muros” erguidos pelos sistemas políticos e financeiros consolidaram decisões institucionais de indiferença, conduzindo o espaço social das nações para uma cultura do individualismo.

É o conforto ilusório resultante de atitudes individualistas que sufoca a bondade de coração…

Submersa em distintos receios de viver, a Humanidade foi perdendo os horizontes da confiança, dificultando ou, quando não mesmo, impossibilitando a construção de caminhos de Paz. De uma Paz apoiada na consciente recusa de quaisquer fronteiras, e não da paz fundamentada em poderes intimatórios ou decisões impeditivas da salutar convivência humana (2).

Só a abertura de coração nos há-de tornar mulheres e homens de confiança, capazes de rejeitar intimidações e violências sobre os mais fragilizados, quantas vezes exercidas sob a cobertura de legalidade. Na abertura de coração assumiremos compromissos éticos, capazes de desafios alicerçados no compromisso pela dignidade humana e por um efectivo “tempo de Paz” (3).

 

… para construir a Paz

O tempo presente é “lugar” para decisões de confiança na Humanidade, quer a nível pessoal ou de grupos sociais mais alargados.

As decisões de confiança têm demonstrado ao longo da história do viver humano que o mais pequeno gesto de bondade transporta em si mesmo a capacidade de multiplicar solidariedades plurais. E por muito exíguas que sejam, elas são preciosas luzes a dissipar os receios gerados pelos egoísmos do isolamento.

A construção da Paz não surge de artifícios do engano ou de interesses dissimulados… Essa seria “a paz do mundo”, orientada pela avidez dos ganhadores, originando sempre novos impulsos de violência.

As atitudes de confiança permitem-nos vislumbrar a urgência de relacionamentos humanos sustentados no que em nós é mais fulgurante e genuíno: a simplicidade e a generosidade. Só na simplicidade e na generosidade nos será possível escutar o apelo para recuperarmos o essencial: a Paz, no interior de cada mulher e de cada homem e nas sociedades onde se inserem.

Uma consciência global infunde-nos mais e maiores responsabilidades… Daí a necessidade de não se poder ignorar os sofrimentos ou os dramas de sobrevivência em latitudes geográficas longínquas da nossa. Todavia, colocasse-nos uma questão: “Como poderei ser fermento de confiança onde vivo, manifestando compreensão pelos outros, que se irá estendendo cada vez mais?” (1).

Nesta compreensão, iniciaremos uma nova etapa pessoal na convivência humana: a confiança tornada experiência no espaço de vivência quotidiana será como um fogo que, pouco a pouco, se irá propagando ao próximo do nosso próximo… E assim cada ser humano se converterá num construtor da Paz.

comunidade grão de mostarda

 

(1) Há mais de uma década, o irmão Roger, fundador da Comunidade de Taizé, escreveu: “Os que procuram viver em simplicidade permanecem atentos para não se tornarem ‘mestres da inquietação’, mantendo-se ‘servos da confiança'”. ver “Pressens-tu un bonheur?”, Ateliers et Presses de Taizé, França, 2005. Edição portuguesa: “Não pressentes a felicidade?”, Paulinas, Prior Velho, 2014.

(2) A esperança gerada com o crescimento de modelos democráticos, nas últimas quatro décadas

do século XX, está a ser surpreendida com o aparecimento e implantação eficaz de propostas políticas ou mesmo de índole militarista, capazes de influenciar grupos humanos descontentes ou injustiçados por decisões de Governos que, desde início deste século, tiveram como única meta medidas favoráveis a interesses financeiros internacionais, desrespeitadores dos Direitos Humanos e do equilíbrio ambiental da Terra.

(3) Um conjunto significativo de pequenas experiências, a nível local ou mais abrangentes a nível internacional, estão a permitir consolidar processos de mudança, não somente no que diz respeito à produção e comercialização em diferentes âmbitos, e dos quais vai estabelecendo um relacionamento social mais fraterno e uma consciência mais respeitosa com a Terra, mas também quer ao nível de novos modelos participativos na acção política e social de alguns grupos de cidadãos.